{"id":1056,"date":"2018-01-25T13:53:02","date_gmt":"2018-01-25T16:53:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/?p=1056"},"modified":"2018-01-25T14:12:29","modified_gmt":"2018-01-25T17:12:29","slug":"traducao-para-cinema-a-evolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/traducao-para-cinema-a-evolucao\/","title":{"rendered":"Tradu\u00e7\u00e3o para cinema: a evolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Car\u00edssim@s leitor@s,<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O primeiro guest post deste ano \u00e9 mais do que especial. Depois de um bom tempo de espera, enfim recebemos em nosso blog a tradutora de cinema Marina Fragano Baird, vulga minha tia Marina, para um relato de cora\u00e7\u00e3o sobre a tradu\u00e7\u00e3o para cinema atrav\u00e9s das d\u00e9cadas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Duas dicas bacanas que darei totalmente de gra\u00e7a para voc\u00eas. A primeira \u00e9: o texto a seguir discorre longamente sobre a moviola e pietagem. Ent\u00e3o, se ainda n\u00e3o leram o post inaugural deste blog especial sobre a moviola, clique <strong><a href=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/?p=13\">aqui<\/a><\/strong> e leia agora para entender melhor sobre a m\u00e1quina e seu funcionamento. Ele foi repostado semana passada com nova introdu\u00e7\u00e3o e arte. A segunda dica? S\u00f3 aproveitem!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">***<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Ol\u00e1, pessoal! Depois de meses ensaiando para escrever no blog do ratinho, aqui estou.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Pois \u00e9, a vida de tradutor de cinema \u00e9 assim, corrida, cheia de imprevistos. Fica dif\u00edcil se programar. E, mesmo tentando se programar, quando seu corpo e sua mente resolvem por voc\u00ea que \u00e9 hora de parar, descansar, fazer aquela viagem revigorante, voc\u00ea corre o risco de deixar de fazer aquele filme que voc\u00ea tanto queria traduzir! Mas voc\u00ea volta renovada para novos desafios. Relaxada e com mais experi\u00eancias e conhecimento para usar nas suas tradu\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1062\" aria-describedby=\"caption-attachment-1062\" style=\"width: 480px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1062 size-full\" src=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/f\u00e9rias.gif\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"270\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1062\" class=\"wp-caption-text\">F\u00e9rias de tradutor de cinema?<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9, acho que \u00e9 uma profiss\u00e3o na qual as f\u00e9rias proporcionam um descanso necess\u00e1rio, claro, mas tamb\u00e9m refor\u00e7am o estoque de conhecimentos a serem aproveitados no seu of\u00edcio. Pelo menos, para mim, \u00e9 assim desde a d\u00e9cada de 70. Por mais complexo que fosse traduzir um filme no in\u00edcio, antes mesmo da exist\u00eancia da m\u00e1quina de escrever el\u00e9trica, e marcar manualmente (que mais tarde come\u00e7ou a se chamar tamb\u00e9m \u201cpietar\u201d) na moviola a entrada e sa\u00edda de cada legenda para o laborat\u00f3rio saber onde colocar cada uma delas, esse foi sempre um trabalho estimulante.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Sem contar que os roteiros n\u00e3o eram bem elaborados como nas \u00faltimas d\u00e9cadas, e era preciso \u201clevantar\u201d muitas palavras e frases na moviola (tarefa dif\u00edcil, pois sendo ela manual, era dif\u00edcil dar a velocidade precisa na fala), ou ent\u00e3o \u201clevantar\u201d o que faltava na cabine onde o tradutor assistia ao filme. E, quando quer\u00edamos voltar atr\u00e1s no filme para rever uma cena ou ouvir novamente um di\u00e1logo, era preciso pedir para o operador parar o filme, voltar atr\u00e1s manualmente at\u00e9 um ponto que provavelmente seria o ideal, montar novamente e religar a m\u00e1quina. E l\u00e1 se iam muitos e muitos minutos, sem contar o risco de ter que ver mais uma vez!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Somado a isso, na \u00e9poca da ditadura, por exemplo, corr\u00edamos o risco de ter que marcar (pietar) o filme tr\u00eas ou quatro vezes, pois nossos austeros censores abominavam, por exemplo, o uso da palavra \u201cdroga\u201d usada como tradu\u00e7\u00e3o de \u201cdamn\u201d ou \u201cshit\u201d (\u201cmerda\u201d nem por sonho), pois podia remeter a \u201cdrogas\u201d (\u201cdrugs\u201d), e cortavam a cena inteira, o que obrigava a remarcar o rolo a partir daquele corte.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1057\" aria-describedby=\"caption-attachment-1057\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1057\" src=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/moviola-tia.jpg\" alt=\"\" width=\"810\" height=\"607\" srcset=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/moviola-tia.jpg 1280w, https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/moviola-tia-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/moviola-tia-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/moviola-tia-1024x768.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1057\" class=\"wp-caption-text\">A tia Marina ainda tem a sua moviola, que est\u00e1 parada h\u00e1 cerca de 3 anos. \u00c9 uma vers\u00e3o mais moderna e menos penosa de usar, otimizada para n\u00e3o sobrecarregar o bra\u00e7o do marcador.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cCal\u00edgula\u201d, por exemplo, eu tive que marcar quatro vezes! A marca\u00e7\u00e3o, ou pietagem, consistia em anotar o n\u00famero (que aparecia no marcador em p\u00e9s da moviola) no in\u00edcio e no fim de cada legenda. Essa marca\u00e7\u00e3o servia tamb\u00e9m para o tradutor saber qual deveria ser o tamanho da legenda para que houvesse tempo de leitura da mesma.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Algumas d\u00e9cadas se passaram, passamos da m\u00e1quina de escrever manual, \u00e0 el\u00e9trica, e depois ao computador. Os filmes passaram h\u00e1 uns tr\u00eas ou quatro anos, a ser todos digitais. Os filmes que eram vistos em cabines, passaram a ser entregues ao tradutor em VHS (\u00e9 s\u00f3 dar um Google para saber que bicho \u00e9 esse!), depois DVD, blu-ray, pendrives. Hoje em dia, ou voc\u00ea recebe o link para baixar o filme, ou ent\u00e3o voc\u00ea recebe um aviso de que determinado filme est\u00e1 dispon\u00edvel para voc\u00ea. E ent\u00e3o, voc\u00ea j\u00e1 recebe a imagem, o template com as legendas na l\u00edngua original e um template em branco para fazer a tradu\u00e7\u00e3o, j\u00e1 indicando de que tamanho deve ser a legenda, que tende atualmente a ser mais curta. (Ou seja, um trabalhinho mental a mais, pois voc\u00ea tem que dar ideia do que est\u00e1 sendo dito com menos palavras!)<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1058\" aria-describedby=\"caption-attachment-1058\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1058\" src=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/hermione.gif\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"198\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1058\" class=\"wp-caption-text\">S\u00f3 a tradutora oficial da Warner poderia dar essa letra, n\u00e9, migues?<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Os roteiros agora costumam estar completos e, por vezes, com explica\u00e7\u00e3o de determinadas palavras ou express\u00f5es. E a imensa quantidade de dicion\u00e1rios digitais e sites de pesquisa nos permitiu aposentar os v\u00e1rios dicion\u00e1rios, que iam sendo substitu\u00eddos por novos, ou por terem se tornado obsoletos ou por j\u00e1 terem perdido v\u00e1rias folhas por excesso de uso. Para nos adaptarmos \u00e0s novas tecnologias, de vez em quando temos que fazer alguns treinamentos. \u00c0s vezes, confesso, d\u00e1 pregui\u00e7a de ter que aprender algo novo, mas depois de dominada a nova t\u00e9cnica, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de satisfa\u00e7\u00e3o, e normalmente o trabalho torna-se um pouco mais \u00e1gil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Foram tantas e tantas mudan\u00e7as atrav\u00e9s das d\u00e9cadas, mas o que n\u00e3o muda \u00e9 o aprendizado a cada filme traduzido. N\u00e3o s\u00f3 em termos de aprender novos voc\u00e1bulos e express\u00f5es, mas de viver diferentes experi\u00eancias com cada personagem, formar opini\u00f5es a respeito de determinados fatos e descobrir suas opini\u00f5es com rela\u00e7\u00e3o a certos temas, antes desconhecidas at\u00e9 por voc\u00ea. E conseguir transmitir para os espectadores a ideia de cada frase, j\u00e1 que geralmente n\u00e3o existe um tempo de leitura suficiente para traduzir tudo que \u00e9 dito, d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de miss\u00e3o cumprida.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Inventar trocadilhos onde a tradu\u00e7\u00e3o literal tiraria a gra\u00e7a de determinada legenda \u00e9 outro desafio. E algumas tradu\u00e7\u00f5es de termos ou express\u00f5es que fizemos e n\u00e3o nos satisfizeram nos perseguem no banho, na refei\u00e7\u00e3o, no supermercado, at\u00e9 que encontremos uma que nos conven\u00e7a. \u00a0Al\u00e9m das pesquisas habituais, \u00e0s vezes temos que ler livros nos quais certos filmes se baseiam, para que sejam mantidos os nomes dos personagens, locais, determinadas express\u00f5es caracter\u00edsticas, etc. Foi assim, por exemplo, com os oito filmes \u201cHarry Potter\u201d. Para traduzi-los, li os sete livros, mantendo assim os nomes dos personagens, das casas, dos feiti\u00e7os, dos lugares, etc., para n\u00e3o frustrar os f\u00e3s, muitos dos quais sabiam cada nome contido no livro de cor. O mesmo aconteceu com outras franquias como \u201cO Senhor dos An\u00e9is\u201d, \u201cO Hobbit\u201d, e os filmes de super-her\u00f3is: \u201cBatman\u201d, \u201cMulher-Maravilha\u201d, \u201cEsquadr\u00e3o Suicida\u201d, \u201cLiga da Justi\u00e7a\u201d, entre tantos outros. Os f\u00e3s dos quadrinhos n\u00e3o perdoam um m\u00ednimo deslize! Assim como os das franquias para adolescentes, como \u201cDivergente\u201d, \u201cCrep\u00fasculo\u201d, etc., al\u00e9m de filmes baseados em livros famosos, como \u201cO Pequeno Pr\u00edncipe\u201d, \u201cA Cabana\u201d, \u201cO Nome da Rosa\u201d.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1059\" aria-describedby=\"caption-attachment-1059\" style=\"width: 364px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1059\" src=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/lista.jpg\" alt=\"\" width=\"364\" height=\"238\" srcset=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/lista.jpg 364w, https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/lista-300x196.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 364px) 100vw, 364px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1059\" class=\"wp-caption-text\">Estamos fazendo uma vaquinha virtual para comprar um novo ap\u00ea onde a tia Marina possa colocar sua lista de filmes traduzidos, que j\u00e1 n\u00e3o cabe mais em seu apartamento.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400;\">E assim, depois de mais de 1.500 filmes traduzidos, continuam iguais o entusiasmo pela profiss\u00e3o, pelo aprendizado a cada filme, a sensa\u00e7\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o ao final de cada trabalho conclu\u00eddo, principalmente os que requerem maior esfor\u00e7o, e a alegria ao ver reconhecido o valor do pr\u00f3prio trabalho.<\/span><\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1064\" src=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/minibio.jpg\" alt=\"\" width=\"219\" height=\"241\" srcset=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/minibio.jpg 458w, https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/minibio-273x300.jpg 273w\" sizes=\"auto, (max-width: 219px) 100vw, 219px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Marina Fragano Baird formou-se em Letras na USP e come\u00e7ou a traduzir para cinema aos 18 anos. Com mais de 40 anos de carreira, tem uma lista invej\u00e1vel de mais de 1500 filmes traduzidos. Viajou boa parte do mundo atr\u00e1s de renova\u00e7\u00e3o mental, espiritual, corporal e, sobretudo, cultural para seguir traduzindo. Pioneira na pietagem de filmes 35 mm, aprendeu sobre marca\u00e7\u00e3o na antiga Labocine do Rio de Janeiro e seguiu marcando filmes at\u00e9 que todos os cinemas brasileiros estivessem digitalizados. Uma refer\u00eancia na tradu\u00e7\u00e3o para cinema, com qualidade que estabeleceu padr\u00f5es no mercado, e \u00edcone para f\u00e3s brasileiros das maiores franquias culturais do planeta.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Car\u00edssim@s leitor@s, O primeiro guest post deste ano \u00e9 mais do que especial. 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