{"id":401,"date":"2016-03-21T20:52:12","date_gmt":"2016-03-21T23:52:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/?p=401"},"modified":"2016-05-19T12:45:25","modified_gmt":"2016-05-19T15:45:25","slug":"nos-tempos-do-2020","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/nos-tempos-do-2020\/","title":{"rendered":"Nos tempos do 20\/20"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Car\u00edssim@s,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estreamos hoje no blog da LBM uma s\u00e9rie de <em>guest posts<\/em> mensais que, temos certeza, voc\u00eas v\u00e3o adorar. \u00c9 nossa forma de trazer outras vozes e experi\u00eancias para nosso blog e contribuir para a dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o sobre legendagem e aumentar nosso escopo de discuss\u00e3o. Para o grande debute, ningu\u00e9m menos que Sandra Schamas, pioneir\u00edssima na legendagem, da \u00e9poca da chegada da TV a cabo ao Brasil. N\u00f3s nos conhecemos numa palestra que demos conjuntamente na Casa Guilherme de Almeida (clique <span style=\"text-decoration: underline;\"><a href=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/?p=75\">aqui<\/a><\/span> para ler o post p\u00f3s-palestra), na qual reunimos nossas experi\u00eancias de cunho e tempos diferentes para levar aos alunos da Casa uma no\u00e7\u00e3o da nossa \u00e1rea da tradu\u00e7\u00e3o. Neste post, a Sandra nos conta como come\u00e7ou a legendar, como era legendar naquela \u00e9poca e como ela encara tudo isso. Coisa linda de se ver!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem mais delongas, senta que l\u00e1 vem hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre dezembro de 1990 e o primeiro semestre de 2003 morei em Miami, uma \u00e9poca rica e intensa da minha vida, uma experi\u00eancia inestim\u00e1vel. Ter um emprego <em>nine to five,<\/em> andar de escarpin, meia branca e tai\u00ear era meu sonho de consumo. Depois do <em>green card <\/em>muitas aulas de ingl\u00eas e um aprendizado informal do espanhol falado nas ruas, fui me aventurar pelo mundo corporativo. Essa trajet\u00f3ria, devo dizer, foi cheia de empecilhos, dificuldades e diferen\u00e7as culturais. Tentei, tentei de todo cora\u00e7\u00e3o me acertar, por\u00e9m, ao perder o trabalho em um banco e dar de cara com a depress\u00e3o, percebi que era melhor parar de insistir e buscar novos cominhos. Foi ent\u00e3o que um amigo me ligou perguntando se eu n\u00e3o queria traduzir textos de embalagem de l\u00e2mpadas de Natal, brinquedos, etc. Insistiu, disse que eu levava jeito, que era s\u00f3 uma experi\u00eancia e acabei topando. E me encontrando. Organizei os textos num McIntoch antig\u00e3o, logo depois comprei um IMac, azulzinho, transparente, fofo. Animada com o projeto, vi que gostava dessa eterna investiga\u00e7\u00e3o que \u00e9 traduzir e acabei, alguns meses depois, aceitando o desafio de traduzir legendas. Trabalhava como <em>freelancer<\/em> em um canal de televis\u00e3o que enviava o sinal de TV a cabo para o Brasil, a HBO ainda n\u00e3o tinha o sinal em Miami, nem as outras empresas de cinema, ent\u00e3o tudo passava pela Globecast Hero.<\/p>\n<figure style=\"width: 1476px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/postdujour.files.wordpress.com\/2014\/10\/31_imac-g3.jpg\" alt=\"\" width=\"1476\" height=\"1025\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Quem se lembra?<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira s\u00e9rie que legendei era de um programa de fitness, em espanhol, e tudo que eu precisava saber o era nome dos m\u00fasculos do corpo, al\u00e9m de ter uma paci\u00eancia de J\u00f3 para marcar a legenda, acompanhando a contagem repetitiva do instrutor.\u00a0\u00a0 A marca\u00e7\u00e3o de legenda era feita separadamente, o programa fazia com que as legendas corressem paralelamente ao filme. Lembro-me bem que, \u00e0s vezes, \u00e0 noite, eu ia at\u00e9 uma sala de controle, com uma quantidade enorme de telas e via os filmes passando, com legendas em v\u00e1rios idiomas. Fixava em algum filme que eu tinha marcado e isso era \u00f3timo para checar se a marca\u00e7\u00e3o estava em tempo certo.<\/p>\n<figure style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.slate.com\/content\/dam\/slate\/blogs\/browbeat\/2011\/09\/29\/hugo_chavez_caption_contest\/ShakeItOff_Aerobics.jpg\/_jcr_content\/renditions\/cq5dam.web.1280.1280.jpeg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"738\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Quando pensamos em &#8220;programa de fitness&#8221;, pensamos nisto.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O treinamento de como fazer legendas era basicamente era o seguinte: uma explica\u00e7\u00e3o de como funcionava o sistema de computador, que era o chamado 20\/20, o n\u00famero de caracteres por linha, dar <em>enter<\/em> em cada linha, evitar pronomes e n\u00e3o usar muita pontua\u00e7\u00e3o. Nada de g\u00edrias ou palavr\u00f5es, boa sorte, se vira!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As discuss\u00f5es n\u00e3o tinham fim e logo que um revisor foi contratado, a coisa ficou pior. N\u00e3o havia dicion\u00e1rios online, o uso da Internet n\u00e3o era permitido no trabalho, n\u00e3o havia corretor ortogr\u00e1fico no programa, n\u00e3o havia tempo para pesquisas. Quando algu\u00e9m me perguntava se eu queria alguma coisa do Brasil, pedia dicion\u00e1rios, livros do Professor Pasquale, livros de gram\u00e1tica, a arte de escrever bem, e por a\u00ed afora.<\/p>\n<figure style=\"width: 3200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/aprendercomletras.files.wordpress.com\/2014\/11\/pb271458.jpg\" alt=\"\" width=\"3200\" height=\"2400\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Obras impressas e bate-papo eram as op\u00e7\u00f5es de pesquisa da \u00e9poca do 20\/20.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia a dificuldade da nossa pr\u00f3pria l\u00edngua, o portugu\u00eas cuja gram\u00e1tica \u00e9 bem chatinha, a gente n\u00e3o consegue decorar todas as regras e tem que consultar sempre. Al\u00e9m disso, escrever bem depende de pr\u00e1tica, sempre, e nem todos tinham. A dificuldade da tradu\u00e7\u00e3o por si s\u00f3 j\u00e1 complica. As quest\u00f5es culturais t\u00eam um grande peso tamb\u00e9m, os jarg\u00f5es, as g\u00edrias, as especificidades de cada nacionalidade. No fim, a gente sempre acabava aprendendo com nossos pr\u00f3prios erros, e os dos outros, em um eterno aprendizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aprendi a traduzir do ingl\u00eas e do espanhol, aprendi a marcar legendas, depois passei a revisar legendas ao mesmo tempo em que marcava. Entrava \u00e0s duas da tarde, sa\u00eda as onze da noite e, uma vez por semana, sa\u00eda as tr\u00eas ou quatro da manh\u00e3 porque, junto com outro tradutor, traduzia o script de dublagem para uma programa de uma hora chamado Discovery News. Era super interessante no come\u00e7o, mas foi ficando chato, pois apresentava sempre o mesmo tipo de assunto. N\u00f3s faz\u00edamos assim: divid\u00edamos o texto, cada um traduzia uma parte e depois troc\u00e1vamos os textos para revis\u00e3o. No fim, l\u00edamos o texto como se f\u00f4ssemos os dubladores para ver se havia <em>lipsync, <\/em>ou seja a sincroniza\u00e7\u00e3o \u00a0com os movimentos labiais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando passei a revisar legendas, logo entrei em contato com a empresa que fazia as tradu\u00e7\u00f5es e, juntos, fomos escrevendo um manual para ter uma padroniza\u00e7\u00e3o e coer\u00eancia entre tradutores, marcadores e revisores. Os produtores de cinema tamb\u00e9m passaram a ditar as regras, o que facilitou bem o trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas viviam me perguntando por que as legendas n\u00e3o eram completas, por que o personagem falava uma coisa e na legenda aparecia outra. De tanto explicar que h\u00e1 um limite de caracteres e uma por\u00e7\u00e3o de outras restri\u00e7\u00f5es de ordem est\u00e9tica para facilitar a leitura, fiquei achando que fazer legenda era um pouco parecido com fazer poesia tradicional, com m\u00e9trica e rimas, o que tamb\u00e9m sempre gostei de fazer.<\/p>\n<figure style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/sinaisestranhos.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/entediado.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"428\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Nossa cara explicando pela mil\u00e9sima vez porque nem tudo nas legendas corresponde perfeitamente ao que \u00e9 dito&#8230; Quem se identifica?<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A linguagem da legenda est\u00e1 entre o portugu\u00eas falado e o portugu\u00eas escrito, e s\u00f3 isso j\u00e1 \u00e9 um problem\u00e3o. A come\u00e7ar por um simples \u201ceu te amo\u201d. Segunda pessoa. Geralmente se fala na terceira. Por um bom tempo essa declara\u00e7\u00e3o de amor ficou bem estranha: \u201c eu a amo\u201d, \u201ceu o amo\u201d, \u201ceu amo voc\u00ea\u201d. Mas a l\u00edngua \u00e9 viva, vai se modificando com o uso, e o \u201ceu te amo\u201d finalmente parece que agora \u00e9 aceito. S\u00f3 para completar a lista de dificuldades, o ingl\u00eas \u00e9 bem mais conciso que o portugu\u00eas, o que n\u00e3o facilita nada o trabalho do legendador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O eterno dilema: se a legenda for muito grande, se tiver muito mais legendas do que a m\u00e9dia, a pessoa n\u00e3o consegue assistir ao filme. Se as legendas s\u00e3o curtas, ou insuficientes, aparecem aquelas lacunas, e quem assiste acaba se perdendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00e1tica foi levando \u00e0 profici\u00eancia, sempre interessada no assunto fui desenvolvendo cada vez mais esse meu lado Sherlock Holmes e a investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 um h\u00e1bito que considero muito saud\u00e1vel. O tradutor precisa ser um eterno desconfiado, um curioso de todos os assuntos.<\/p>\n<figure style=\"width: 384px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.relatably.com\/m\/img\/sherlock-holmes-memes\/40c674c88606b351e6b0df07a4bfc734e7c1326b97eb7ee502d6304a6523b5a3.jpg\" alt=\"\" width=\"384\" height=\"439\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">O tradutor-Sherlock que h\u00e1 em todos n\u00f3s.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda no final dos anos 1990, a Florida International University &#8211; FIU &#8211; abriu um curso de Tradu\u00e7\u00e3o e Interpreta\u00e7\u00e3o e logo me inscrevi fazendo parte da primeira turma. Aprendi muito, foi muito produtivo, pois j\u00e1 trabalhava com tradu\u00e7\u00e3o de legendas h\u00e1 algum tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gosto de pensar que cada legenda deve ser como um an\u00fancio luminoso e precisa dar conta do recado.\u00a0Quando algu\u00e9m me diz que a legenda estava errada, eu desconfio. Por\u00e9m, por h\u00e1bito, continuo revisando as legendas dos filmes e programas que assisto e, \u00e0s vezes, alguma coisa escapa. O tradutor \u00e9 uma pessoa, n\u00e3o \u00e9 uma m\u00e1quina, e \u00e0s vezes, pela quantidade e urg\u00eancia de trabalho, o tradutor entra no piloto autom\u00e1tico e algum erro pode passar. A mesma coisa o revisor. Al\u00e9m disso, devemos considerar que voc\u00ea pode saber muito bem ingl\u00eas, pode ser um bom professor, mas pode n\u00e3o ser um bom tradutor. E ainda na \u00e1rea de tradu\u00e7\u00e3o, vamos nos deparar com in\u00fameras especializa\u00e7\u00f5es, tradu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, liter\u00e1ria, da \u00e1rea m\u00e9dica, jur\u00eddica, de poesia, etc. Ainda bem, assim h\u00e1 espa\u00e7o e trabalho para todos!<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para saber mais e tudo sobre a Sandra, acesse o site dela: <a href=\"http:\/\/www.sandraschamas.com.br\/\">http:\/\/www.sandraschamas.com.br\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Car\u00edssim@s, Estreamos hoje no blog da LBM uma s\u00e9rie de guest posts mensais que, temos certeza, voc\u00eas v\u00e3o adorar. \u00c9 nossa forma de trazer outras vozes e experi\u00eancias para nosso blog e contribuir para a dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o sobre legendagem e aumentar nosso escopo de discuss\u00e3o. Para o grande debute, ningu\u00e9m menos que Sandra &hellip; <\/p><\/div>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/nos-tempos-do-2020\/\" class=\"more-link\">continue lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":407,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-401","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-guest-post"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/401","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=401"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/401\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":409,"href":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/401\/revisions\/409"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-json\/wp\/v2\/media\/407"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=401"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=401"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=401"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}