{"id":44,"date":"2014-06-24T12:30:50","date_gmt":"2014-06-24T15:30:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/?p=44"},"modified":"2016-05-19T12:47:08","modified_gmt":"2016-05-19T15:47:08","slug":"heist-films-entertainment","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/heist-films-entertainment\/","title":{"rendered":"Heist Films Entertainment"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Fim de semana retrasado, eu me encontrava de folga passeando em Curitiba. N\u00e3o ser\u00e1 grande surpresa para o meu leitor se eu disser que resolvi visitar o Museu Oscar Niemeyer, o MON. O &#8220;Olho&#8221;, como \u00e9 comumente chamado em refer\u00eancia ao formato do seu incr\u00edvel v\u00e3o livre, \u00e9 um destino tur\u00edstico popular n\u00e3o somente por sua \u00f3bvia atratividade arquitet\u00f4nica, mas tamb\u00e9m pela excel\u00eancia de suas exposi\u00e7\u00f5es que, segundo descri\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio museu, colocou o MON no mapa dos museus brasileiros importantes, que antes de limitava \u00e0 rota SP-RJ. Para minha grata surpresa, ao perambular pelo museu visitando seus espa\u00e7os e exposi\u00e7\u00f5es, percebi que ele se propunha a ser casa de todas as artes visuais e que o cinema n\u00e3o era exce\u00e7\u00e3o. Foi assim que conheci a Heist Films Entertainment, uma produtora de filmes nada convencional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O\u00a0Olho fica l\u00e1 no alto. Para chegar at\u00e9 o Olho propriamente dito (que abriga uma deslumbrante exposi\u00e7\u00e3o sobre Jo\u00e3o Tur\u00edn), \u00e9 preciso atravessar um corredor cujo teto n\u00e3o se enxerga, ainda que seja todo iluminado. \u00a0Ele d\u00e1 numa pequena sala, na qual encontrei um gigantesco p\u00f4ster de um filme intitulado originalmente &#8220;Paranormal&#8221;, por\u00e9m com t\u00edtulo em portugu\u00eas &#8220;Garota Diab\u00f3lica&#8221;. Nele, uma mo\u00e7a se sentava \u00e0 beirada de uma cama com o olhar tresloucado que s\u00f3 os possu\u00eddos t\u00eam, punhos medonhamente retorcidos. &#8220;At\u00e9 a\u00ed&#8221;, pensei, &#8220;mais um clich\u00ea e desinteressante filme de terror&#8221;. Por\u00e9m, \u00e0 direita do p\u00f4ster, no canto inferior da salinha, uma velha televis\u00e3o 14&#8243; ligada, sem nenhum sinal. Olhando o p\u00f4ster mais de perto, entre as cl\u00e1ssicas folhinhas de louro que anunciam a participa\u00e7\u00e3o dos filmes em festivais importantes, em vez de Cannes ou Sundance, lia-se Hoax Festival. Hum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gustavo Von Ha tem sido apontado por muitos cr\u00edticos como um dos mais inventivos artistas contempor\u00e2neos por aqui. \u00c9 ele o criador da Heist Films Entertainment, uma empresa fict\u00edcia dedicada a produzir e distribuir trailers de filmes que jamais ser\u00e3o feitos. N\u00e3o, &#8220;Garota Diab\u00f3lica&#8221; n\u00e3o \u00e9 um filme de verdade, embora tivesse tudo para ser. \u00a0Na pequena sala introdut\u00f3ria do MON citada acima e em mais tr\u00eas pequenos espa\u00e7os verticalizados a caminho do Olho (a parte amarela que sustenta o Olho), est\u00e3o em exibi\u00e7\u00e3o os mais variados objetos sobre quatro trailers de filmes que n\u00e3o existem. P\u00f4steres, fotos, vestimentas, perucas, roteiros em papel (quem saber\u00e1 se realmente h\u00e1 alguma coisa escrita neles?) e os pr\u00f3prios trailers se juntam para uma celebra\u00e7\u00e3o improv\u00e1vel do trailer como obra de arte, absoluto em si mesmo. A fragmenta\u00e7\u00e3o narrativa proporcionada pelo trailer, que normalmente serviria para motivar o espectador a assistir a obra completa, passa a ser um g\u00eanero narrativo completo, algo de muito p\u00f3s-moderno. Saber que n\u00e3o h\u00e1 nada al\u00e9m do pr\u00f3prio trailer para ser visto causa um estranhamento muito grande, uma rea\u00e7\u00e3o muito intensa que se contrasta com a simplicidade da exposi\u00e7\u00e3o. A exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 <em>open-ended<\/em>; um convite \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o para montar sua pr\u00f3pria narrativa final. Muito tentador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gustavo-von-ha-projeto-solo-expo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-medium wp-image-50 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gustavo-von-ha-projeto-solo-expo-300x214.jpg\" alt=\"gustavo-von-ha-projeto-solo-expo\" width=\"300\" height=\"214\" srcset=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gustavo-von-ha-projeto-solo-expo-300x214.jpg 300w, https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gustavo-von-ha-projeto-solo-expo.jpg 641w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil ignorar, no entanto, que os quatro trailers de filmes em exibi\u00e7\u00e3o, a saber &#8220;Garota Diab\u00f3lica (Paranormal), \u00a0&#8220;Hollywood em Chamas 1&#8221; (Gasoline 1), &#8220;Hollywood em Chamas 2&#8221; (Gasoline 2) e &#8220;A Busca do Amor&#8221; (TokyoShow), fazem alus\u00e3o aos grandes clich\u00eas dos g\u00eaneros cinematogr\u00e1ficos (a come\u00e7ar pela tradu\u00e7\u00e3o de seus t\u00edtulos para o portugu\u00eas). N\u00e3o seria dif\u00edcil imaginar desenvolvimentos e finais para tais filmes, mas talvez n\u00e3o fossem dos mais originais. Mas tudo isso n\u00e3o parece ser \u00e0 toa. Segundo o encarte da exposi\u00e7\u00e3o, &#8220;[Todos os trailers] possuem pe\u00e7as publicit\u00e1rias, atores e atrizes profissionais, p\u00e1ginas na internet e nas redes sociais, DVDs distribu\u00eddos em bancas de filmes piratas e cartazes &#8211; em suma, tudo o que um filme real deve ter por conven\u00e7\u00e3o&#8221;. Mas que filme real deve ter tudo isso por conven\u00e7\u00e3o? Certamente, um filme que visa alcan\u00e7ar grandes p\u00fablicos, vender bem. E dinheiro \u00e9 a alma do neg\u00f3cio, n\u00e3o \u00e9? Ao produzir trailers que &#8220;emulam uma realidade que nunca se concretiza em sua totalidade&#8221;, o autor est\u00e1, ainda que em segundo plano, mostrando a pr\u00f3pria desvaloriza\u00e7\u00e3o do filme como objeto final do p\u00fablico e, em oposi\u00e7\u00e3o, escancarando a \u00eanfase dada ao processo de venda do filme antes mesmo que ele exista. A realidade ou concretiza\u00e7\u00e3o aqui n\u00e3o s\u00e3o importantes, mas sim a fantasia. Fantasia criada em torno da cria\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, das pessoas nela envolvidas, nos objetos utilizados, tudo elevado a um status de propor\u00e7\u00e3o descabida. Por qu\u00ea? Dinheiro. No mundo em que vivemos, a &#8220;realidade&#8221; do filme, sua mensagem, sua ess\u00eancia, \u00e9 pouco importante perto do quanto se pode lucrar com ele. Franquias de filmes, bem simuladas por Hollywood em Chamas 1 e 2, talvez sejam o maior exemplo disso. Filmes muitas vezes sem sentido j\u00e1 t\u00eam seus nomes e informa\u00e7\u00f5es vendidos e marketados antes mesmo de existirem, pois o p\u00fablico parece n\u00e3o se cansar. Ser\u00e1 que n\u00e3o nos cansamos mesmo ou somos eternamente levados a verificar algo que foi t\u00e3o incessantemente martelado em nossas cabe\u00e7as? Ah, a expectativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Heist Films Entertainment&#8221; (que \u00e9, a prop\u00f3sito, o nome da exposi\u00e7\u00e3o) pode ser um m\u00e1gico convite ao universo de possibilidades que o cinema nos proporciona ou um n\u00e3o t\u00e3o m\u00e1gico convite ao pobre universo da mesmice a que ele nos condena. Por ambos os motivos, imperd\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">http:\/\/www.heistfilms.org\/<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PS: fiquem, ent\u00e3o, com a cena de Alessandra Negrini segurando uma peruca de forma irresist\u00edvel no trailer de &#8220;Em Busca do Amor&#8221; (TokyoShow). A peruca, objeto tornado praticamente m\u00edtico, pode ser encontrada na exposi\u00e7\u00e3o (ah, v\u00e1?).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/tokyoshow.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-51 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/en\/the-mousehole\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/tokyoshow.jpeg\" alt=\"tokyoshow\" width=\"300\" height=\"168\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fim de semana retrasado, eu me encontrava de folga passeando em Curitiba. N\u00e3o ser\u00e1 grande surpresa para o meu leitor se eu disser que resolvi visitar o Museu Oscar Niemeyer, o MON. 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