{"id":1382,"date":"2021-10-18T17:49:43","date_gmt":"2021-10-18T20:49:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/toca-do-mouse\/?p=1382"},"modified":"2021-11-12T13:32:47","modified_gmt":"2021-11-12T16:32:47","slug":"audiodescricao-na-arte-informacao-experiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/toca-do-mouse\/audiodescricao-na-arte-informacao-experiencia\/","title":{"rendered":"Audiodescri\u00e7\u00e3o na arte: Informa\u00e7\u00e3o? Experi\u00eancia?"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Como nos relacionamos com a arte e com a experi\u00eancia est\u00e9tica da arte? Som, imagem, texto, cultura, infer\u00eancia. Isso tudo vem tran\u00e7ado. E o que a acessibilidade comunicacional, especificamente a audiodescri\u00e7\u00e3o, tem a ver com isso?<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse meu tempo como bacharel em Letras, e dentro dele o tempo como audiodescritora-roteirista, passei por v\u00e1rias quest\u00f5es, inquieta\u00e7\u00f5es, propostas e miss\u00f5es! Isso tudo partiu de observa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios formatos art\u00edsticos, estudo, pr\u00e1tica e de ouvir a recep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. Pensando principalmente no audiovisual e no teatro, vou compartilhar um pouco dessas reflex\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Audiodescri\u00e7\u00e3o como fazer t\u00e9cnico e profissional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea est\u00e1 chegando e ainda n\u00e3o sabe quem \u00e9 a Audiodescri\u00e7\u00e3o (AD para os \u00edntimos ou necessitados de economia de caracteres) na fila do p\u00e3o, aqui vai a bio dela: Audiodescri\u00e7\u00e3o \u00e9 uma modalidade de tradu\u00e7\u00e3o intersemi\u00f3tica, pois traduz n\u00e3o entre l\u00ednguas, mas entre linguagens. A linguagem de partida \u00e9 a linguagem dos signos visuais. Tudo o que \u00e9 imag\u00e9tico: cores, gestos, s\u00edmbolos, fei\u00e7\u00f5es. Existe uma divis\u00e3o b\u00e1sica entre audiodescri\u00e7\u00e3o de imagens est\u00e1ticas (o que n\u00e3o se move: foto, desenho, card, p\u00f4ster) e audiodescri\u00e7\u00e3o de imagens din\u00e2micas (o que se move, seja gravado ou ao vivo: filme, s\u00e9rie, pe\u00e7a de teatro). Em alguns contextos podemos ter h\u00edbridos, como uma aula em que existe o contexto geral que se move e as imagens est\u00e1ticas de um slide.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Audiodescri\u00e7\u00e3o para quem?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O foco dessa t\u00e9cnica \u00e9 criar acesso para quem apreende informa\u00e7\u00f5es sem o uso da vis\u00e3o. Por isso \u00e9 um dos recursos da <em>acessibilidade comunicacional<\/em>. A experi\u00eancia de pessoas com defici\u00eancia visual (cegas ou com baixa vis\u00e3o) pauta a constru\u00e7\u00e3o de uma AD, e por isso mesmo n\u00f3s, audiodescritores-roteiristas, sempre trabalhamos em conjunto com um audiodescritor-consultor, que \u00e9 uma pessoa com defici\u00eancia visual especializada na \u00e1rea. Mas h\u00e1 relatos que mostram que outros perfis se beneficiam dela. Por causa da caracter\u00edstica b\u00e1sica da t\u00e9cnica, que \u00e9 trazer as informa\u00e7\u00f5es para as palavras, pessoas que t\u00eam mais facilidade para receber, se conectar ou manter aten\u00e7\u00e3o \u00e0 informa\u00e7\u00e3o verbalizada do que \u00e0 n\u00e3o verbalizada podem acabar tendo na audiodescri\u00e7\u00e3o um apoio na constru\u00e7\u00e3o do acesso. Trazer para o plano verbal e sonoro pode, em alguns casos, aproximar a informa\u00e7\u00e3o de autistas, pessoas com TDAH, pessoas com defici\u00eancia intelectual. Ou algu\u00e9m que assista a um filme sem ter muita inser\u00e7\u00e3o cultural no contexto dele e acabe captando mais nuances do que \u00e9 apresentado atrav\u00e9s da verbaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E quando a Audiodescri\u00e7\u00e3o se encontra com a Arte?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com base nisso tudo, como voc\u00ea deve imaginar, t\u00e9cnicas, diretrizes e recomenda\u00e7\u00f5es foram se desenvolvendo para deixar essa modalidade de tradu\u00e7\u00e3o funcional. E de fato, deixam. Mas quando experi\u00eancia est\u00e9tica (est\u00e9tica aqui inclui imagem, som, texto, expressividade e significa\u00e7\u00e3o) entra no jogo, temos que ter mais alguns tipos de cartas no nosso deck. E para isso, defendo a constru\u00e7\u00e3o de uma audiodescri\u00e7\u00e3o que harmonize com a narrativa, que n\u00e3o seja nem intrusiva e nem isenta, aliando a voz discursiva (do roteiro), a intepreta\u00e7\u00e3o vocal (da locu\u00e7\u00e3o) e o ritmo (da mixagem do \u00e1udio).<\/p>\n\n\n\n<p>Isso pode ser bem desafiador. Existe a reponsabilidade tradut\u00f3ria de definir o que ter\u00e1 destaque e o que ser\u00e1 sacrificado em nome do ritmo. Pois audiodescrever \u00e9, como traduzir em geral, fazer escolhas. E essas escolhas direcionam o olhar do espectador de forma an\u00e1loga \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o, que escolhe pontos e elementos para priorizar e definir o todo. Uma mesma cena em filmes diferentes pode receber audiodescri\u00e7\u00f5es diferentes, pois o foco de import\u00e2ncia entre as v\u00e1rias coisas mostradas pode ser outro. Imagine: em uma cena de uma festa com 30 pessoas, \u00e9 evidente que uma audiodescri\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia descrever em detalhes a apar\u00eancia, as roupas e as atitudes das 30. Ent\u00e3o entra a sensibilidade narrativa de entender <em>o que<\/em> \u00e9 essencial ali e <em>como <\/em>transmitir isso. E \u00e9 nesse <em>como<\/em> que moram as pol\u00eamicas. Mesmo com plena compreens\u00e3o de que o p\u00fablico com defici\u00eancia visual n\u00e3o deve ser subestimado, e cada indiv\u00edduo tem seu pr\u00f3prio campo de interpreta\u00e7\u00e3o, a m\u00e1xima dos manuais \u201cdescreva o que voc\u00ea v\u00ea, n\u00e3o interprete\u201d parece n\u00e3o dar conta da realidade da fun\u00e7\u00e3o de audiodescrever um filme. Mesmo que voc\u00ea n\u00e3o enfeite o pav\u00e3o e n\u00e3o enverede para o qualitativo, descrevendo as coisas como \u201cbelas\u201d ou \u201chorrendas\u201d, a escolha vocabular e o jeito de cadenciar as ora\u00e7\u00f5es vai dar o tom do seu texto.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns manuais de audiodescri\u00e7\u00e3o parecem feitos (com \u00f3tima inten\u00e7\u00e3o) com base em experi\u00eancias pedag\u00f3gicas, e n\u00e3o de arte, narrativa e entretenimento. E a\u00ed, quando a experi\u00eancia art\u00edstica entra em cena e voc\u00ea percebe que as solu\u00e7\u00f5es oferecidas por esses manuais soariam pedag\u00f3gicas demais, anat\u00f4micas demais ou totalmente fora do ambiente lexical daquela obra, eles somem da sua frente como o Mestre dos Magos. E a\u00ed, coragem, roteirista. \u00c9 a hora de usar todos os conhecimentos e habilidades que desenvolveu. Inclusive, mas n\u00e3o apenas, o que os manuais trouxeram. \u201cDepende do contexto\u201d s\u00e3o palavras que quem lida com tradu\u00e7\u00e3o e audiodescri\u00e7\u00e3o poderia mandar grafitar na parede do lugar em que trabalha. Meu desafio tem sido nem pisar em ovos e nem viajar na maionese feita com os ovos nos quais estou tentando n\u00e3o pisar. Talvez fazer omelete seja uma boa. Mas n\u00e3o d\u00e1 pra fazer omelete sem quebrar alguns&#8230; t\u00e1, parei.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A busca por uma AD nem intrusa nem isenta, e sim dieg\u00e9tica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A busca pelo equil\u00edbrio \u00e9 um caminho que traz riscos, essa busca por n\u00e3o ser nem intrusa na narrativa nem isenta da narrativa. \u00c9 poss\u00edvel ser direta, comunicativa e ter estilo com pequenas ousadias textuais, tomando liberdades com os p\u00e9s no ch\u00e3o. Mas n\u00e3o existe deck infal\u00edvel. Temos que saber combinar as cartas b\u00e1sicas, que d\u00e3o conta quase sempre, segurando um jogo b\u00e1sico que cumpre sua fun\u00e7\u00e3o, e as cartas situacionais, aquelas que ganham o jogo quando usadas no momento certo, mas n\u00e3o seguram sozinhas (n\u00e3o tente montar um deck s\u00f3 com elas). Isso vale para as diretrizes b\u00e1sicas, para o banco de solu\u00e7\u00f5es audiodescritivas que a gente vai montando ao longo do tempo e para aquelas solu\u00e7\u00f5es espec\u00edficas que t\u00eam tudo a ver com aquela cena e trazem um l\u00e9xico aut\u00eantico para o texto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes o estritamente descritivo n\u00e3o \u00e9 diegeticamente interessante e vale a pena arriscar e lan\u00e7ar m\u00e3o de um atalho comunicativo. Dois exemplos:<\/p>\n\n\n\n<p>Estritamente descritivo: Uma crian\u00e7a de camiseta verde corre atr\u00e1s de outras quatro crian\u00e7as. A de camiseta verde toca o ombro de outra, de vestido vermelho, e esta come\u00e7a a correr atr\u00e1s das outras quatro.<\/p>\n\n\n\n<p>Atalho comunicativo: Cinco crian\u00e7as brincam de pega-pega.<\/p>\n\n\n\n<p>Estritamente descritivo: Toca a bola com o peito do p\u00e9 direito e a move para baixo do calcanhar. Posiciona a bola na parte lateral do p\u00e9. Corre e empurra a bola pelo campo, alternando-a entre a lateral interna e a lateral externa do p\u00e9 direito enquanto mant\u00e9m o p\u00e9 esquerdo atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Atalho comunicativo: Mant\u00e9m a posse da bola.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que, como sempre, depende do contexto. Mas percebe como, dependendo do tempo que voc\u00ea tem para inserir o segmento audiodescritivo no filme sem cobrir falas importantes, o atalho pode ser necess\u00e1rio, ou pelo menos ser mais din\u00e2mico e proporcionar um ritmo mais interessante junto com os sons do filme, resultando em uma experi\u00eancia art\u00edstica mais afinada com o material?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aumentando o Deck!<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Isso tudo pode ser constru\u00eddo de diversas maneiras dependendo do projeto. A comunica\u00e7\u00e3o com a produ\u00e7\u00e3o, por exemplo, pode dar \u00e0 equipe de audiodescri\u00e7\u00e3o cartas que funcionam naquele material, atrav\u00e9s de respostas a perguntas, sugest\u00f5es e divulga\u00e7\u00e3o conjunta, levando a AD para um lugar menos t\u00edmido dentro do projeto, menos tacanho, menos saindo da festa e se despedindo com &#8220;desculpa qualquer coisa&#8221; e mais \u201cat\u00e9 a pr\u00f3xima, pode ficar com o resto do bolo salgado, que eu vou levar uns brigadeiros aqui na tupperware\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pintura tem as cores e os tra\u00e7os para compor uma experi\u00eancia art\u00edstica. Uma audiodescri\u00e7\u00e3o tem palavras, frases, entona\u00e7\u00e3o, pontua\u00e7\u00e3o vocal, ritmo em conjunto com o ambiente sonoro da obra. Esses recursos s\u00e3o maravilhosos, e se apropriando deles \u00e9 poss\u00edvel ir para lugares mais po\u00e9ticos, mais divertidos, mais formais ou informais.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que a AD brasileira ainda tem muitos caminhos para percorrer, e vamos construir pontes e sinalizar trilhas nos pr\u00f3ximos anos. Bora andar!<\/p>\n\n\n\n<p><em>Este texto foi escrito especialmente para o blog da LBM por Fernanda Brahemcha, Audiodescritora, Tradutora Audiovisual<\/em> <em>e amiga do ratinho.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como nos relacionamos com a arte e com a experi\u00eancia est\u00e9tica da arte? Som, imagem, texto, cultura, infer\u00eancia. Isso tudo vem tran\u00e7ado. E o que a acessibilidade comunicacional, especificamente a audiodescri\u00e7\u00e3o, tem a ver com isso? 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