{"id":75,"date":"2014-09-30T17:45:34","date_gmt":"2014-09-30T20:45:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/toca-do-mouse\/?p=75"},"modified":"2016-05-19T12:46:43","modified_gmt":"2016-05-19T15:46:43","slug":"a-casa-guilherme-de-almeida-e-a-legendagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/toca-do-mouse\/a-casa-guilherme-de-almeida-e-a-legendagem\/","title":{"rendered":"A Casa Guilherme de Almeida e a Legendagem"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00faltima quarta-feira, dia 24, eu estive na Casa Guilherme de Almeida para um debate sobre legendagem. A convite do mediador da mesa, Donny Correia, l\u00e1 fui eu para a minha primeira palestra acompanhada do s\u00f3cio-pai e do fiel terceiro membro da LBM, Lucas Mateus. Minha companheira de mesa foi a incr\u00edvel Sandra Schamas, pioneira do ramo de legendagem, da safra que se encarregou de inventar a legendagem de filmes e s\u00e9ries quando a TV a cabo chegou ao Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo da mesa foi \u201cLegendagem: problemas e solu\u00e7\u00f5es\u201d, e para ele eu separei alguns exemplos recentes de solu\u00e7\u00f5es criativas que arranjei para alguns pepinos tradutol\u00f3gicos que cruzaram meu caminho este ano. Neste post, eu gostaria de fazer algumas considera\u00e7\u00f5es para as quais n\u00e3o houve tempo, j\u00e1 que o mesmo foi curto para tanta participa\u00e7\u00e3o e interesse de todos os presentes \ud83d\ude42<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o tempo que tive para falar sobre mim, meu trabalho e meus exemplos, procurei passar para a audi\u00eancia como traduzir foi parte integrante da minha forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 profissional, como pessoal. Quem leu o post inaugural do nosso blog sabe como tudo come\u00e7ou, mas falta ainda refor\u00e7ar como eu aprendi o meu ingl\u00eas primariamente traduzindo e como meu aprendizado da l\u00edngua foi aplicado \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o durante muito tempo, at\u00e9 que outras atividades me levaram a outros usos e profici\u00eancias, retornando mais uma vez \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o de forma mais completa. Portanto, ao meu ver, a supera\u00e7\u00e3o desses problemas de tradu\u00e7\u00e3o, que Pedersen chamaria de <em>crisis point<\/em> na tradu\u00e7\u00e3o, sempre estiveram presentes na minha pr\u00e1tica. O que n\u00e3o significa que eu sempre tenha tido sucesso em super\u00e1-los; na verdade, foi bem o contr\u00e1rio! Durante o meu desenvolvimento profissional, houve alguns fatores que atrapalharam bastante e foi preciso um amadurecimento conceitual cont\u00ednuo para que eu pudesse encarar meus desafios lingu\u00edsticos da forma mais adequada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exemplo disso foi a total falta de desconfian\u00e7a que me acompanhou durante um bom tempo. Um bom tradutor desconfia de tudo que v\u00ea no seu texto de partida. Eu sei que cansa s\u00f3 de ler, pensar que tudo pode ser uma pegadinha, mas \u00e9 bem por a\u00ed mesmo. Toda combina\u00e7\u00e3o de palavras pode ter uma conota\u00e7\u00e3o a mais, pode estar ligada a um elemento da cena, pode ser uma g\u00edria do Alasca (algu\u00e9m a\u00ed sabe o que \u201csourdough\u201d significa?).\u00a0 Muitas vezes paro para pensar em como o of\u00edcio ficava quase imposs\u00edvel para um pobre-diabo-tradutor de d\u00e9cadas atr\u00e1s com as poucas possibilidades de pesquisa. Como a Sandra contou na palestra, h\u00e1 alguns anos, quem tinha um nativo a quem recorrer ficava se achando depois! Mas hoje em dia n\u00e3o tem desculpa, n\u00e3o. Entre Google, Facebook, dicion\u00e1rios e corpus online, dif\u00edcil n\u00e3o achar alguma coisa. Mas tem que fu\u00e7ar. E desconfiar. Sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/geradormemes.com\/media\/created\/oimkoi.jpg\" alt=\"\" width=\"530\" height=\"441\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra coisa que atrapalhou muito tamb\u00e9m foi a gram\u00e1tica. Durante tanto tempo, at\u00e9 bem recentemente, me preocupar com a gram\u00e1tica a ser empregada na legenda era algo que me consumia tanto que muitos dos <em>crisis points<\/em> que apareciam recebiam import\u00e2ncia menor. O que \u00e9 melhor, go HBO e adotar o portugu\u00eas padr\u00e3o at\u00e9 a morte (&#8220;Fornica-me?&#8221;) ou escrever como o povo fala? Bem, no final das contas, nenhum dos dois. A legenda \u00e9 um texto h\u00edbrido, diagonal, um cruzamento do escrito com o falado. Assim, deve aceitar caracter\u00edsticas de ambos. Lindo! Mas como fazer escolhas? Seguir a gram\u00e1tica padr\u00e3o a todo custo \u00e9 pobre, pode ser horrivelmente irracional e distante da realidade. Por\u00e9m, querer reproduzir na legenda a forma como as pessoas falam gera problemas conceituais s\u00e9rios. Reproduzir a fala de quem? Passando do ingl\u00eas para o portugu\u00eas ou vice-versa, j\u00e1 estamos descaracterizando a fala da personagem; se adotamos um estilo de fala semelhante, ele j\u00e1 \u00e9 diferente. E, se quando voc\u00ea desconstr\u00f3i imperativos e concord\u00e2ncias pronominais e emprega g\u00edrias voc\u00ea acha que est\u00e1 escrevendo como o povo fala, \u00e9 melhor abrir a cabe\u00e7a. O Brasil \u00e9 um lugar imenso e cheio de falas, e voc\u00ea estar\u00e1 fazendo uma escolha bastante localizada ao selecionar certos desvios da l\u00edngua padr\u00e3o achando que todo mundo fala assim. Dif\u00edcil, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/diariodecomunicacao.files.wordpress.com\/2012\/11\/linguagem-popular-x-linguagem-padrc3a3o3.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"238\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem, eu aprendi a fazer escolhas gramaticais de forma estrat\u00e9gica. Na LBM, temos tentado seguir um manual gramatical inventado pelo nosso bom senso lingu\u00edstico e cultural, mas n\u00e3o baseado na nossa pr\u00f3pria fala. Somos de S\u00e3o Paulo e n\u00e3o costumamos falar \u201cOlhe para mim\u201d, e sim \u201cOlha para mim\u201d. Mas sabemos que em outras regi\u00f5es as pessoas usam o imperativo normativo e assim, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 ir com a regra, pois todos entendem e aceitam. Nesse caso, a gram\u00e1tica normativa desempata; \u00e9 mais justo assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas em outros casos, deixamos a regra de lado para dar lugar a algo mais l\u00f3gico e que ofere\u00e7a maior orienta\u00e7\u00e3o ao leitor das nossas legendas. O pronome \u201clhe\u201d n\u00e3o se usa mais tanto, mas o problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 esse. Esse pronome causa muita ambiguidade de leitura. \u201cEu lhe amo\u201d. Voc\u00ea ou ele? Ah, n\u00e3o d\u00e1. O Pasquale que nos perdoe, mas vamos ter que misturar as esta\u00e7\u00f5es! Mesmo sem aplicar o tu como pronome do caso reto, usamos sim o \u201cte\u201d nas nossas legendas para designar segunda pessoa no caso obl\u00edquo. N\u00e3o \u00e9 porque falamos assim, \u00e9 porque, mais uma vez, todos v\u00e3o entender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resolvidos os impasses gramaticais, que s\u00e3o muitos, pude me concentrar nos verdadeiros desafios, nos meus <em>crisis points,<\/em> e usar minha criatividade de forma mais f\u00e9rtil. No final das contas, a gram\u00e1tica n\u00e3o deve subir a um patamar mais elevado do que aquele que deve ocupar: o de uma ferramenta que nos ajuda e n\u00e3o algo a ser venerado e seguido a qualquer custo, seja na sua forma escrita ou falada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, talvez o que tenha feito a maior diferen\u00e7a na minha pr\u00e1tica tradut\u00f3ria foi adquirir mais confian\u00e7a nas minha ideias. Para superar um <em>crisis point<\/em>, al\u00e9m de criatividade, \u00e9 preciso muita coragem tamb\u00e9m. Superar um <em>crisis point<\/em> muitas vezes significa escrever algo na legenda que far\u00e1 com que a mesma se destaque, tirando o tradutor da sua invisibilidade. O conceito do tradutor invis\u00edvel \u00e9 muito valorizado, diz-se que a boa legenda \u00e9 aquela que nem se percebe. Dentro dessa l\u00f3gica, \u00e9 comum que tradutores de di\u00e1logos lavem duas m\u00e3os diante de piadas, trocadilhos e elementos monoculturais atrav\u00e9s de desambigua\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 omiss\u00e3o. Acredito que a maior causa disso seja o medo de ser ridicularizado, de que o que se escreve seja notado pelos espectadores de forma negativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fica aqui a minha recomenda\u00e7\u00e3o: d\u00ea uma chance para as suas solu\u00e7\u00f5es, mesmo que pare\u00e7am rid\u00edculas, exageradas ou fora de lugar. Antes de descart\u00e1-las totalmente, d\u00ea a si mesmo a oportunidade de v\u00ea-las escritas na tela do seu computador, analis\u00e1-las de uma certa dist\u00e2ncia. Se n\u00e3o arranjar nada melhor, deixe l\u00e1, n\u00e3o apague. Quem sabe amanh\u00e3 voc\u00ea n\u00e3o volta e descobre que j\u00e1 se acostumou com o que escreveu? Pouco a pouco, voc\u00ea percebe que \u00e9 capaz de arranjar sa\u00eddas para os seus <em>crisis points<\/em>. Afinal de contas, a tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 sim um trabalho de autoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.littlebrownmouse.com.br\/toca-do-mouse\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/20140924_192737-300x180.jpg\" alt=\"20140924_192737\" width=\"383\" height=\"230\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PS: Agradecimento especial a Donny Correia e a CGA pelo convite e a oportunidade de novas reflex\u00f5es. Leitores, n\u00e3o deixem de acompanhar a programa\u00e7\u00e3o da Casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">http:\/\/www.casaguilhermedealmeida.org.br\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na \u00faltima quarta-feira, dia 24, eu estive na Casa Guilherme de Almeida para um debate sobre legendagem. A convite do mediador da mesa, Donny Correia, l\u00e1 fui eu para a minha primeira palestra acompanhada do s\u00f3cio-pai e do fiel terceiro membro da LBM, Lucas Mateus. 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